Acro

Quando eu tinha por volta dos 6 anos, costumava escalar com o meu irmão mais novo uma árvore que havia no fundo do pátio da casa dos meus pais. Era uma árvore feia. Ela tinha os galhos finos e retorcidos, formando um emaranhado com vários nós, que nós usávamos como apoio para os nossos pés. Tinha também folhas secas e espinhosas que cravavam em nossas mãos. Ao redor dela não crescia nada, porque as suas raízes matavam a grama e outras plantas. Então meu pai um dia decidiu cobrir de cascalho aquela parte para não ficar a terra exposta.

Meu irmão e eu subíamos naquela árvore feia o mais alto que podíamos e olhávamos o mundo lá embaixo. As pedrinhas eram os prédios, as formigas as pessoas, e nós, pendurados nos galhos, voávamos numa espaçonave. Acho que o amor que eu tinha por lugares altos nasceu. Hoje, refletindo, acredito que não devíamos estar muito mais que um metro e meio acima do chão. Mas era altura o suficiente para voarmos, altura o suficiente para o meu irmão cair.

Visitando meus pais no ultimo verão, a arvore feia não existia mais, mas minha mãe ainda cuidava religiosamente do jardim que havia plantado no lugar onde ela estivera. Pela idade que eu tinha na época quando tudo aconteceu, acho que as coisas não me impactaram da mesma forma que eles. Depois de tudo, eu comecei a sofrer uma superproteção ressentida por parte deles. Não que eu os culpe, mas até eu finalmente sair de casa eu não conseguia compreender eles.

O relevante é que até eu conseguir escapar, fui muito controlado e vigiado. Isso era completamente sufocante para mim, que sempre que eles se descuidavam, subia nos muros das casas dos vizinhos e andava se equilibrando, se imaginando como um trapezista. Conforme eu crescia, conseguia escapar mais e mais do olhar vigilante deles, e subia mais e mais alto. Telhados e terraços. Meus pés na borda do precipício e ver o chão cada vez mais longe. Poucos centímetros de cair dezenas de metros. A vertigem era viciante.

Hoje eu moro sozinho. Meu apartamento é o mais alto do meu edifício. A janela de vidro do meu quarto ocupa do chão ao teto. Dá para ver a cidade toda. As pessoas parecem formigas na rua lá embaixo. Eu evito olhar para ela.

Alguns dias depois de sair de casa, eu comecei a sonhar com meu irmão. Nós dois no alto da arvore feia, o som do galho quebrando, ele com o pescoço retorcido lá no chão. A primeira vez que isso aconteceu, eu acordei suado. Era uma noite quente e meu quarto estava abafado. Fui até a janela e a abria. Com o impulso, meu corpo pendeu um pouco para o lado de fora. Eu vi a rua. Vi os carros e as pessoas pequeninas. Vi o meu caído lá embaixo, com o pescoço retorcido.

Me afastei com ânsia de vômito da janela, e não consegui dormir aquela noite. O vento que entrava no meu quarto me assombrava e me puxava. Desde aquela noite, nunca consegui fechar a janela.

Certa vez, teve um temporal na cidade. O pior dos últimos cinquenta anos, disseram. Eu só fiquei sentado, olhando enquanto a chuva entrava furiosa pela janela. A água castigando os móveis. Completamente paralisado e tremulo.

Beelzebub

O mundo parece agitado do lado de fora do meu apartamento. Apesar de ser tarde, a avenida ao lado do meu prédio está sempre movimentada com os sons rasgados dos motores. E do andar de cima, vem o que parece ser mais uma briga dos meus vizinhos.

Isso tudo me entedia profundamente. Uma monotonia perpétua e viscosa parece se grudar nos móveis, nas paredes; em mim.

Viscosa também é a umidade de outra noite abafada. Eu nunca abro as janelas, mas mesmo que eu abrisse, são noites sem vento. Eu não tenho ar-condicionado nem ventilador. O calor preenche o apartamento como se fosse uma sauna.

Mesmo nu, eu escorro suor.

Desligo o fogão. Com as mãos enroladas em um pano de prato, levo a panela até a pia e escorro o macarrão instantâneo. O vapor da água quente subindo e formando gotas no meu

rosto. Ponho a massa em um prato fundo e levo até a mesa. A lâmpada é amarelada e fraca, o que deixa o ambiente a meia luz.

Me sento sozinho. Como sempre.

A mesa posta a minha frente, Garfo na esquerda, faca na direita. Formalidades. Eu não sinto fome há muito tempo. Comer é outra formalidade.

Eu observo as linhas tênues de vapor que ainda sobem do prato. O cheiro é artificial e me causa enjoo. Sem animo, eu ergo minha mão e pego o garfo. Sinto o frio do metal nos meus dedos. Cravo o talher no emaranhado de macarrão, e enrolo. Com a faca, corto os fios que ainda se prendem aos demais, e levo a comida a boca.

O macarrão sem tempero possui um gosto apático. E os fios pastosos se enrolam na minha língua, e se prendem entre os meus dentes. Enquanto mastigo, eles oferecem uma fraca resistência esponjosa.

Mastigo devagar, cinco, dez, quinze vezes. Até contar deixar de fazer sentido. A comida perdendo qualquer resquício do pouco gosto que tivesse. Os fios que antes se entrelaçavam, agora banhados em minha saliva, foram rasgados, mascados, até se tornar uma coisa só. Disforme, um bolo viscoso e grudento.

Minha língua se contrai, empurrando essa mescla para a minha garganta. Sinto o bolo descendo pelo meu pescoço, pressionando as paredes da faringe. Meu corpo forçando aquilo a descer, avançar cada vez mais fundo dentro de mim, até se assentar no meu estômago. Novamente me sinto enjoado.

Ainda há um prato inteiro na minha frente.

Pego o garfo mais uma vez, e enrolo a massa. Porém no caminho até minha boca, sinto meus dedos fraquejarem. O garfo cai ao chão, quicando algumas vezes no piso até parar. Os fios presos ao garfo se espalham pelo chão grudados no piso.

Eu me inclino lentamente na cadeira, estendendo o meu braço para tentar pegar o garfo do chão. Sinto meu peso desequilibrar a cadeira, e eu caio ao chão também com um baque.

Minha cabeça gira, a visão turva. Sinto um leve pulsar onde eu bati minha têmpora contra o chão.

O garfo está bem próximo do meu rosto, mas não tenho mais interesse nele. Não tenho vontade de me levantar.

Me arrasto pelo piso até estar no centro da sala. O piso frio em contato com a minha pele despida é agradável em comparação ao calor. Me encolho abraçando os joelhos com os braços, e assim fico. Minha boca pende entreaberta; a saliva escorre pela minha bochecha e forma uma poça.

Essa nova perspectiva é interessante.

A sujeira que se esconde sob os móveis agora é evidente. O pó e o lixo não possuem nenhuma timidez nesse ângulo. Minha atenção vai para debaixo do sofá.

Algumas canetas. Uma simplória quantidade de moedas. Anotações de algo que um dia eu me importei. Um pacote de bolachas comida pela metade.

E então ela aparece. Sai de dentro de uma lata de refrigerante vazia. Primeiro as antenas cumpridas, depois a cabeça, depois o corpanzil marrom.

A barata parece curiosa, com suas antenas compridas reconhecendo o ambiente. Andando despreocupada pelo labirinto de lixo esquecido embaixo do sofá.

Eu estendo minha mão, e ela vem até mim.

Ela sobe pelos meus dedos finos, suas patas fazendo cócegas na palma da minha mão. Ela anda devagar por toda a extensão do meu braço, pelo meu peito. Sobe-me o pescoço, caminha pelo meu rosto. Então, entra na minha boca entreaberta.

Sinto cada uma das suas seis patas na minha língua. Sinto o seu gosto. Eu fecho meus lábios, e eu a engulo.

Agora ela está dentro de mim. Posso sentir ela explorando meu corpo, se espremendo por entre meus órgãos, nas minhas vias aéreas, por trás dos meus olhos. Suas perninhas espinhosas roçam no meu cérebro. O que ela procura dentro de mim?

Então sinto ela fazer o caminho inverso, tentando sair.

Com uma assoada forte, ajudo ela a sair pelo meu nariz. Ela cai no piso em frente ao meu rosto. Chacoalha as suas assas cascudas, e me olha com uma certa severidade. Então vira as costas para mim, e volta para o universo empoeirado debaixo do sofá.

Pela primeira vez em muito tempo eu me sinto terrivelmente só.

Me encolho ainda mais, os joelhos encostando o peito. Tremo com o frio que eu ainda não tinha percebido. Meus olhos se enchem, e lágrimas quentes escorrem no meu rosto. O que ela poderia ter visto dentro de mim? Ou será que ela viu apenas vazio?

Alguém me abrace.

Por favor.

Mas não há resposta.

Minha consciência volta, e eu me vejo cercado por inúmeras aranhas, pequenas, marrons, grandes, pretas, peludas. Seus numerosos olhos me estudando. Então elas vêm até meus pulsos e começam a trabalhar. Secretam fios de seda que enrolam firmemente ao redor das minhas mãos. Puxam minha mão direita para o lado, forçando a me virar a ficar de braços abertos, costas no piso. Em instantes, elas prendem meu corpo ao chão com suas teias finas.

Imediatamente as aracnídeas terminarem de me amarrar, elas retornam ao mundo debaixo do sofá, e de lá vejo um pequeno focinho sair. Um ratinho vem até mim, farejando o meu rosto. Eu abro minha boca para falar alguma coisa, mas ele crava seus dentinhos no meu lábio e arranca um pedaço da minha pele com força. Logo, dezenas de ratos cinzentos estão sobre mim, me arranhando com suas patas, cravando seus dentes em minha carne e musculo. Vorazes, famintos. Rasgando, devorando.

Mas algo faz eles pararem. Em conjunto eles se põem em duas patas, e farejam o ar. Escuto um gralhar, e todos os ratos correm de volta para debaixo do sofá de onde vieram.

Uma ave preta pousa em uma das minhas costelas expostas. Hesita por alguns instantes, porém logo crava o bico em meu fígado e arranca um pedaço. Outra ave circula ao meu redor, pousa, e arranca outro pedaço do meu interior. Tão logo, surge uma terceira ave, e essa pousa sobre o que restou do meu rosto, e leva consigo meu olho esquerdo. Os três pássaros bicam o que podem arrancar do interior do meu torço, e alçam voo novamente, desaparecendo da minha vista.

Não fico abandonado por muito tempo, pois uma revoada de moscas zombe freneticamente ao meu redor. Elas pousam em mim com a mesma velocidade que alçam voo com suas pequenas asas, bebendo o meu sangue que se espalha. E junto delas, pequenas larvas brancas costuram o que restou de mim. Cavando tuneis entre os pedaços meio comidos e despedaçados. Limpando os ossos expostos.

Nada mais resta.

Eu junto o garfo de metal, e o ponho em cima da mesa. O macarrão instantâneo já esfriou e endureceu, mas eu o como mesmo assim.

É outra noite quente e abafada. Eu abro as janelas do meu apartamento para o mundo agitado lá fora.